Sobre o blog:

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro” Ricardo H. Jones

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Obssessão pós-parto: a compulsão feminina de voltar imediatamente ao peso anterior à gravidez




Texto de Juliana Linhares, publicado na Revista Veja em Março/2009.



A primeira reação da maioria das mulheres que engravidam, sobretudo na primeira vez, é se sentir nas nuvens. A segunda, atualmente, é pensar: como vou voltar à forma rapidamente? A resposta é dura: infelizmente não vai…

Por mais que artistas e modelos impressionem pela velocidade com que aparecem de barriga (tanque) de fora, semanas depois do parto, é importante dizer para vocês que a recuperação a jato da cinturinha só acontece com mulheres que já eram magras, atléticas e predispostas à rápida perda de peso.

Como a cantora baiana Claudia Leitte, de 28 anos, que, um mês depois de ter dado à luz o filho Davi, comandou um trio elétrico, com pouca roupa e muita energia, nos intermináveis dias e noites do Carnaval de Salvador. “Tenho movimentação de atleta. Chego a ficar oito horas pulando nos shows. Meu corpo é forte e, por isso, se recuperou rapidamente”, diz Claudia, já livre de todos os 10 quilos que ganhou na gravidez e mais 1, para garantir.

A Claudia Leitte merece todos os elogios, mas não deve ser tomada como exemplo… Ao contrário, a expectativa de emagrecimento rápido pode acrescentar uma carga de alto stress à vida já tão modificada pelo nascimento de um filho.

Em média, o esperado é que mulheres com bom condicionamento físico que engordaram de 10 a 13 quilos durante a gestação recuperem o peso habitual em três a quatro meses, o mesmo prazo para que o útero retorne ao tamanho original. Não custa repetir: cada corpo tem o próprio ritmo. Na gravidez, os músculos retroabdominais são esticados em até 50%.

O prazo de três meses para a recuperação é o mínimo. Inclusive, neste período, saiba que vai continuar a usar suas roupas de grávida, e isto não tem qualquer problema. Não precisa ter vergonha disto. É normal!

Aliás, acontece com frequência, quando o ganho de peso é maior e a dificuldade de voltar ao normal também, de que as clientes voltem para fazer compras de novas roupas nas lojas especializadas de roupas para gestantes, mesmo depois do parto.

Mas voltando ao caso da Claudia Leitte, que está amamentando e não mudou a dieta habitual, mas fez caminhadas todos os dias desde que saiu da cama; vinte dias depois do parto ela já estava correndo quarenta minutos na esteira. Ganhou medalha de ouro na competição pós-parto que se desenvolve entre as mães famosas, provavelmente empatada com a modelo Alessandra Ambrosio, também de 28 anos, que engordou 20 quilos, teve a filha Anja em agosto e, no dia 15 de novembro, desfilou para a grife de lingerie Victoria’s Secret, de calcinha, sutiã e 18 quilos a menos.

Ao contrário da maioria das famosas que disfarçam os sacrifícios exigidos pela vida diante das câmeras, não se deve esconder o sacrifício que é mesmo voltar à velha forma. Pois é preciso, sim, fazer um regime bem rígido e equilibrado, orientado por nutricionistas, que mandam normalmente fazer as cinco refeições diárias, porém de baixas calorias. Depois de um mês, sempre é bom começar a fazer musculação e caminhadas todos os dias.

A atriz americana Jessica Alba, de 27 anos, também teve a mesma e reconfortante sinceridade. Ela deu à luz uma menina em junho, engordou 15 quilos e sofreu para recuperar em três meses a forma que lhe rendeu o título de um dos mais belos corpos do cinema. Com o compromisso comercial de posar para o calendário de uma marca de bebida, Jessica começou a fazer ginástica moderada três semanas após o parto. Dois meses depois, era uma hora por dia, seis dias por semana. Segundo ela, os exercícios eram horríveis. Ela chegava a chorar. Depois disso, disse que nunca mais fez ginástica – ela apareceu linda e esbelta no calendário (ainda que provavelmente a cinturinha foi eletronicamente afinada…).

Se até Jessica Alba precisa de Photoshop, imaginem as mulheres comuns…
Aliás, a paranoia é tão grande que é comum algumas mentirem. Engordam 10 quilos, mas dizem que foram 30, para impressionar as amigas…

Os regimes de fome, já habitualmente condenáveis, não devem nem ser cogitados por mães recentes. O saudável na gravidez é uma dieta de cerca de 1.800 calorias por dia. No pós-parto, sobe para 2 000 a 2 300. Afinal, as mães que cortam muito a alimentação, incluindo os carboidratos necessários para produzir leite, podem ter hipoglicemia, cansaço e tonturas. E talvez os bebês não ganhem peso na quantidade e velocidade ideais.

A prática de exercícios também exige moderação. Na porção inferior do corpo, é preciso tomar cuidado com os pontos. E a musculatura peitoral estará debilitada por causa da amamentação, o que pode tornar dolorosos os exercícios com peso.

Da mesma forma que o excesso de cuidados do período de resguardo do passado, quando as mulheres nem lavavam os cabelos, os exageros do presente impressionam.

Perigo
Um caso recente foi o de Tameka Foster, mulher do cantor americano Usher. Em fevereiro, apenas dois meses depois de ter dado à luz, internou-se para uma lipoaspiração na barriga, numa clínica de São Paulo. Ao médico, disse que o parto havia sido seis meses antes. Tameka sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a anestesia e passou onze dias internada.

É possível estabelecer uma relação entre os dois fatos?

O corpo de parturientes recentes contém excesso de líquido, o que aumenta o volume de sangue. Durante uma operação, a paciente recebe ainda mais líquido. O coração não dá conta de bombear todo esse sangue e pode sofrer uma parada. Além disso, o útero ainda não voltou ao seu tamanho normal e pode comprimir as veias das pernas, que fazem a ligação do coração com os membros inferiores, causando uma embolia.

Como as dores do parto, os sacrifícios em favor do emagrecimento rápido podem parecer mais vagos com o passar do tempo. A atriz Carolina Dieckmann, por exemplo, engordou 30 quilos na segunda gravidez e impressionou pela recuperação da cinturinha. Durante o esforço emagrecedor, chegou a reclamar que passava muita fome. Hoje, corpo perfeito, releva: “É, sentia uma fominha”. Todas as que não são Carolina estão desobrigadas de fome de qualquer tamanho.

1 comentário:

Marina disse...

É uma estupidez querer voltar imediatamente para o peso anterior à gravidez. Quando uma mulher engravida deve estar preparada para um sem número de mudanças irreversíveis que ocorrerão na sua vida e o peso é uma dessas mudanças. Então para quem amamenta, emagrecer rapidamente é um mito, pois tem-se mais fome e o corpo precisa de mais calorias para a produção de leite.
Há mulheres que se gabam de ter voltado à forma rapidamente mas não revelam aquilo que sacrificaram, nomeadamente o seu próprio bem estar e o do bebés que provavelmente deixaram de amamentar para fazer tratamentos de emagrecimento.