Sobre o blog:

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro” Ricardo H. Jones

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

VOLTEI!


"A prova de sabedoria e bom senso está na modulação, não na demolição pura e simples de discursos e práticas, como deu prova o próprio Michel Odent este fim-de-semana - reparaste na subtileza com que a fisiologia apareceu modulada pela mentalidade e contexto cultural de cada mulher?"
Esta resposta da S. no Faceboock  deixou-me a pensar...
O caso apontado por Michel Odent - uma mulher que precisava desesperadamente de ver o aparato da tecnologia por perto para conseguir parir, deu-me a luz que me faltava...
Mas o mail que a C. me enviou foi a gota de água para chegar à conclusão que tanto procurava...
É verdade que a mensagem do curso não foi tão radical como possa parecer à primeira vista. Algumas afirmações tiveram em mim um efeito bombástico, é um facto. Mas também, como diz a S., se não viesse para casa com uma pontinha de desassossego, era caso para perguntar: que andei lá eu a fazer? Mas crescer doi... ui... doi tanto...

A verdade é que o ser humano não é pura fisiologia, por maior que seja o seu esforço, capacidade de abstracção, treino, preparação, etc....
"Há actos que representam, à partida, um verdadeiro atentado à fisiologia, mas que são sentidos pelas mulheres como factores indutores de segurança em trabalho de parto. " O bicho-homem é muuuuuuuuito complicado e tentar rasteirar o nosso neo-córtex pode pura e simplesmente acordá-lo, ao invés de o pôr a dormir." - Grata S. pelas tuas sábias palavras...
 

Nestes dias virei-me para dentro, voltei a relembrar os partos que acompanhei, e, tentei perceber, se nesses partos, a minha intervenção os tenha tornado mais longos... nunca saberei se cada história poderia ser diferente... Sinto que intervenho muito pouco nos partos, mas depois do que ouvi no curso... ponho tudo em causa.
Este curso serviu para reflectir e melhor a minha prática, mas isso não significa que aceite aquela verdade como única e indiscutível!

Sou uma mulher diferente da Liliana, cada caso é um caso, cada gravidez é uma gravidez, cada parto é um parto, e acho que não há receitas... sou uma doula de coração aberto e intuição apurada, logo, tenho que ir vendo, sentido e fazendo o meu melhor em cada momento, em cada parto... Grata C. pelas tuas palavras...
Como diz a S. "PARIR UM FILHO É PARIR UM MUNDO. E este MUNDO é tudo o que arrastamos connosco no nosso próprio processo de nascimento, crescimento, socialização e aculturação. Não há como contornar esta evidência. "

Mas o que me fez questionar tudo, e sentir de novo a marca das minhas feridas foi sem duvida o facto de não ter tido um parto fisiológico. SE eu tivesse tido um parto fisiológico, seria melhor doula? Agora, e depois desta pausa, tenho a certeza absoluta que sou doula porque passei pelos meus dois partos... Se eu não tivesse parido da maneira que pari, provavelmente, não seria doula!
Como diz a L. - Tudo está perfeito tal como está, porque assim está a acontecer.

Estou profundamente grata pela forma como tive os meus filhos, porque ambas me trouxeram iluminação sobre quem sou e questionar como teria sido, apenas me impede a aceitação de quem sou neste momento. - Grata L.
 Sintam o meu amor a invadir o vossos corações!

O curso Paramana Doula fez-me crescer enquanto mulher mamífera, fez-me ver que já não preciso de ter outro filho para curar os meus partos... Sinto que já fiz o processo de cura, sinto-me renascida, sinto-me MULHER, verdadeiramente MULHER, em pleno!
Sem duvida que em cada parto que eu estive, cada bebé que vi nascer, cada mulher que vi transformada em mãe, eu curava um pedacinho daquela mulher que fui, mas que hoje já não sou....
A TODAS AS MULHERES QUE VI NASCER COMO MÃES - Estou-vos eternamente grata!
Ao Michel e à Liliana - Grata por me fazerem questionar!
À Carina, à Sílvia, à Luísa C. e à Carla S.- Grata pelas vossas sábias palavras! Beijos nos pés!
Aos leitores do blog - Estou de volta ;) mas acreditem, há uma doula Cat antes do curso, e há uma Mãe, Mulher, Mamífera, Amiga, Filha, Irmã, Doula Cat depois do curso :)

Aos meus filhos - Grata por me terem escolhido como vossa mãe... que privilégio!


"Mas é preciso morrer e nascer de novo


semear no pó e voltar a colher

há que ser trigo, depois ser restolho

há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada

a vida não é dia sim, dia não

é feita em cada entrega alucinada

prá receber daquilo que aumenta o coração."

Restolho, Mafalda Veiga



"Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira."


Cecília Meireles

3 comentários:

Costa disse...

Lagrimas nos olhos de te ler. Ainda bem que voltaste assim,como dizes. Para mim foste a Doula certa no momento certo. Para mim continuas a ser a minha Doula, e não consigo olhar para o L. sem me lembrar de ti.
beijinhos
Dulce

Carla disse...

Olá Catarina, hum...o que mexeu assim tanto contigo. Não podes esmiuçar um pouco mais, fiquei curiosa...
Beijinho grande

Carina disse...

Amiga, companheira de caminho, MULHER, daquelas MULHERES que, em vez do velho chavão "já não se fazem" prefiro acreditar que, aos poucos, vão ressurgindo por aí, cheias de força, sabedoria e amor, para partilhar, para ser exemplo.
Foi para mim, durante algum tempo, um mistério da existência o facto de, não tendo tido o parto que sonhaste (sem deixar de admitir que tenhas tido os partos que tinhas que ter), tenhas encontrado dentro de ti força e amor suficientes para empoderar outras mulheres e encorajá-las a procurar o seu caminho, sem medo.
Há neste mundo quem tente "curar" as suas feridas ferindo os outros, na tentativa de se sentir menos desajustado. Mas tu sabes o segredo, tu sabes que só se curam feridas curando este imenso organismo vivo que somos, todos juntos.
O mundo precisa de pessoas assim, pessoas que, fazendo o que sabem e sentem o melhor que podem, assumem a sua pequenez e a sua imensidão, a sua força e a sua fragilidade, tudo junto, tudo com a mesma certeza inabalável de que o caminho é aquele que fazemos, com os nossos passos e que, no fim, colhemos o que plantámos: amor, alegria... ou não. Tu sabes o que queres colher. E isso faz a diferença. Continua.
Com todo o amor, gratidão e admiração do MUNDO!
C.