Sobre o blog:

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro” Ricardo H. Jones

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Preparação para o nascimento - a realidade portuguesa

Ontem li no Correio da Manhã que um estudo espanhol concluiu que as mulheres que fazem preparação para o parto apresentam menores níveis de ansiedade,dão de mamar por mais tempo, mas pedem doses iguais de anestesia e o parto tem duração semelhante, em comparação com as mulheres que não frequentam esse tipo de aulas.

Seria interessante fazer este estudo em Portugal.... A verdade é que os conteúdos das aulas de preparação para o parto são as mesmos de á 30 anos!
O que se está a passar com a preparação para o parto no nosso pais?
A grande maioria estão feitos para nos ensinar a seguir a rotina hospitalar,  mentalizam-nos para "aguentar" para não gritar, para sermos submissas e colaboraradoras!

Quando fiquei grávida da minha filha ( que já tem 6 anos ) fiz preparação para o parto num local muito conhecido, pelo método psicoprofiláctico . O que aprendi?

- Aprendi a respirar! UAU! como se eu não o soubesse fazer!!!
O Lamaze Institute (que conhecemos em Portugal por método psicoprofiláctico), vive actualmente uma época de pouca aceitação a nível internacional, exactamente pela imagem de uma preparação para o parto focalizada na respiração.
No entanto, no seu último guia The Official Lamaze Guide, fala-se mesmo de repensar a respiração e relaxamento. Neste guia, a mulher é convidada a encontrar a sua própria respiração consciente, e a procurar outras formas de se manter activa para lidar com as contracções: andar, dançar, massagens, bolas de parto, baloiçar, etc. Resumindo, respirar já não é o ensino ou a prática, do Lamaze Institute.
No entanto, em Portugal, o método Lamaze utilizado nas preparações para o parto continua a ser focalizado na respiração.

O que diz M. Odent - "Assim, Lamaze, obstetra francês, pai da psicoprofilaxia ocidental, dizia e escrevia que uma mulher deve aprender a dar à luz tal como aprende a andar, a ler ou a nadar. Estas indicações despistaram o mundo inteiro, e com o tempo, resultaram numa crise. (…) Foi assim que gerações de mulheres gestantes foram preparadas para o parto.

A interpretação do processo de parto como um processo involuntário que põe em marcha as estruturas ancestrais, primitivas, mamalianas do cérebro, pressupõe desfazer a ideia aceite de que uma mulher pode aprender a parir.

Esta interpretação permite, inclusive, compreender que não se pode ajudar activamente uma mulher a parir. Não se pode ajudar num processo involuntário. Somente se pode evitar perturbá-lo demasiado."

In Michel Odent El bebé es un mamífero 1990.


-Aprendi a "Encher o peito de ar, fechar a boca e fazer FORÇA!"

Frase conhecida pela maioria das mulheres que já passou pela preparação para o parto pelo método psicoprofiláctico (ou pariu num hospital! ).

Este tipo de respiração tem tecnicamente o nome de Manobra de Valsalva.

O que dizem as evidencias cientificas da utilização desta manobra no parto?
Recomendações da OMS:

"4.4 O procedimento de fazer força na segunda fase do trabalho de parto- A prática de estimular o fazer força de forma prolongada e dirigida (manobra de Valsalva) durante a segunda fase do trabalho de parto é amplamente utilizada em muitas maternidade. A alternativa é apoiar o padrão espontâneo da mulher de fazer força. Vários estudos compararam estas duas práticas (Barnett e Humenick 1982, Knauth e Haloburdo 1986, Parnell e al 1993, Thomson 1993). A força involuntária resultou em três a cinco "forças" relativamente curtas (4-6 segundos) a cada contracção, comparando com forças continuas com 10-13 segundos de duração, acompanhadas por apneia forçada. O segundo método resulta numa segunda fase um pouco mais curta, mas pode causar alterações de frequência e de volume de fluxo cardíaco provocadas pela respiração. Se a mulher estiver deitada de costas, pode haver também compressão da aorta e redução do fluxo sanguíneo ao útero. Nos estudos publicados, o pH médio na artéria umbilical foi menor nos grupos com força prolongada, e havia uma tendência para depressão dos valores de Apgar. As evidências existentes são poucas, mas delas emerge um padrão onde o fazer força de forma prolongada e precoce resulta numa diminuição modesta da duração da segunda fase, mas isto não parece trazer nenhum benefício; parece haver comprometimento das trocas gasosas materno-fetal. A força espontânea curta parece ser melhor (Sleep et al 1989). Em muitos países, é comum a prática de fazer pressão no fundo do útero durante o segundo estágio do trabalho de parto, com a intenção de acelerar o nascimento. Ás vezes isto é feito pouco antes do desprendimento, outras desde o início do período expulsivo. Além do aspecto do maior desconforto materno, suspeita-se que esta prática possa ser perigosa para o útero, períneo e feto, mas não existem dados de pesquisa sobre este assunto. A impressão é que, no mínimo é usado com muita frequência, sem que existam evidências da sua utilidade". (Care in normal birth: A practical guide. 1996, WHO)

Estudo apresentado Em Janeiro de 2006 o Gray Journal (Jornal Americano de Obstetricia e Ginecologia)

"a diferença tem pouco impacto em todo o tempo do parto, cujos especialistas dizem que pode ir além das 14 horas em média, quando ás mulheres foi dito para fazer força em cada contracção, deram à luz 13 minutos mais rápido que aquelas que não receberam qualquer tipo de instrução".( Coaching women during childbirth has little impact, Dec 30, Reuters)

A manobra de Valsalva foi ainda identificada como um dos factores de risco de trauma genital em partos vaginais espontâneos e normais, em mulheres primíparas assistidas por enfermeiras-parteiras, num estudo publicado no The Birth Journal em Junho de 2006. (Leah L. Albers CNM, DrPH, Kay D. Sedler CNM, MN, Edward J. Bedrick PhD, Dusty Teaf MA, Patricia Peralta (2006) Factors Related to Genital Tract Trauma in Normal Spontaneous Vaginal Births Birth 33 (2), 94–100.)

Se encher o peito de ar, fechar a boca e fazer força, independentemente da posição em que estiver, consegue perceber que o efeito gerado é o contrário ao que o corpo necessita (o períneo é contraído em lugar de descontrair).

Então porque é que ainda se ensina a respirar para o parto, então porque é que as nossas maternidades ainda usam a manobra de Valsalva?

- Aprendi a parir deitada e a estar deitada durante todo o trabalho de parto, aprendi que a episiotomia é útil pois "é melhor cortar que rasgar", aprendi a estar passiva e ouvi mais de 500 vezes a frase " não faça nada que vá prejudicar o parto, a criança, e a si!". 

"Não faça nada....."


Afinal... Preparação para o nascimento de um filho? Porquê e para quê?


Sem duvida que todas nós mulheres estamos preparadas para parir... mas a mente e o espírito estarão?

O que é fundamental para mim num curso de preparação para o parto?
-Trabalhar a parte emocional
-"Empoderar" as mulheres, fazendo-as ver que são donas do seu corpo e possuem uma capacidade inata para parir
- Esmiuçar a fisiologia do parto
-E falar sobre as possibilidadse do plano de parto

Tinha muitas mais coisas a acrescentar, mas estas 4 são fundamentais para mim !


A preparação para o parto tem de mudar urgentemente!
Nós, mulheres, temos de recuperar a confiança na nossa capacidade inata de parir, escutando os nossos instintos, em vez de esperar por ordens externas.

Aos profissionais compete actualizarem-se com base em evidências científicas!

Ao escutar-se os sons e gemidos emitidos pelas mulheres livres durante a fase de expulsão do bebé, facilmente os confundimos com os sons de satisfação de uma relação sexual amorosa.


Quantas mulheres aceitariam ter aulas de preparação sexual em que lhe fosse ensinado como respirar e agir no momento de um orgasmo?

2 comentários:

Didi e Pepe disse...

olaola
eu adorei as aulas...alem do k disses t, aconselho todas as futuras mamas, principalmente as caloiras a participar.embora k haja gravidas k ja tem filhotes, mas k frekuentas as aulas, dao nos apoio e sempre vao aprendendo algo novo.

tb foi graças a estas aulas, k passado kase um ano e meio, amamento os meus bebes-so bebem LM

obg a todas as concelheiras d amamentaçao

bjk fofos
lia, didi & pepe17m+3s

APPM disse...

Olá, Cat!

Parabéns pelo artigo...
Eu também fiz um curso de prep. parto, quando estava grávida, e realmente as informações passadas pela enfermeira sei hoje que estão completamente ultrapassadas... é pena!

E agora como Educadora Perinatal noto que estes mitos se enraizaram nas cabeças das grávidas: "não vamos aprender a respirar?" é uma pergunta que sei que tenho de responder em algum momento do curso!


Jocas