Sobre o blog:

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro” Ricardo H. Jones

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Este parto que eu não escolhi...

Parto normal, parto natural, parto na água, parto em casa, cesariana. As opções de parto são cada vez mais variadas. Entre o parto imaginado e o parto real fica a sensação de desilusão, frustração, fracasso, culpa.



Rita Martins ainda não estava grávida e já tinha decidido como gostaria que fosse o parto. Por achar que seria o melhor para o bebé e para o elo de vinculação que se estabelece com os pais, escolheu ter um filho na água. A gravidez chegou e com ela a vontade reforçada de um parto aquático. Fez um curso de preparação para o parto com uma doula, teve acesso a informação sobre o parto na água em casa e conheceu uma enfermeira-parteira que se disponibilizou para acompanhar o casal. «Nesta sequência decidimos que esse era o nosso caminho», conta Rita. A partir daí, todos os preparativos foram num só sentido: «Acreditei sempre que o Gabriel iria nascer na água, em casa e num ambiente tranquilo». Mas, quando o Gabriel decidiu vir ao mundo, o caminho alterou-se. Ao fim de algumas horas em trabalho de parto, Rita começou a perder sangue e a parteira decidiu que era preciso ir para o hospital. «Quando me confrontei com a necessidade de ter de fazer uma cesariana, não consegui estar tranquila. Mais tarde, percebi que não estava preparada para lidar com esta realidade», reconhece.



Contactaram a obstetra que também estava a acompanhar a gravidez, mas ela não estava disponível. Seguiram para um hospital privado e aí, com uma equipa «pouco humana», as desilusões foram-se seguindo: não deixaram o pai assistir ao parto, levaram o Gabriel para longe da mãe assim que nasceu e ignoraram o pedido para colocar a música ambiente que tinham levado de casa. «A música é apenas um pormenor mas para nós era importante. E nesse sentido não me senti respeitada.» O parto íntimo e familiar que tinha imaginado ficou para trás.



Por tudo isto, «os primeiros dias após o parto foram mais delicados em termos de auto-confiança» e assombrados pelo medo «que a vinculação pudesse ter sido afectada» por um parto pouco tranquilo. Nove meses depois de ter visto o Gabriel pela primeira vez, Rita ainda sente um nó na garganta quando fala do parto e não consegue afastar os sentimentos de culpa por não se ter preparado melhor para uma eventual cesariana.



Antes: contar com a imprevisibilidade



O caso de Rita está longe de ser único. O parto é cada vez mais um momento pensado e planeado ao pormenor. Mas continua a ser um dos momentos mais imprevisíveis da vida de uma mulher. Um verdadeiro salto no escuro. «Durante a gravidez, é indispensável que se trabalhe o factor da imprevisibilidade, ou seja, devem ser apresentados à grávida os diversos cenários e opções. É importante que ela participe nas decisões e que sinta que existem coisas que pode controlar, mas simultaneamente que aceite que existirão outras que não dependerão dela», explica Mónica Fernandes, psicóloga na Maternidade Júlio Dinis. «Muitas vezes, as expectativas são muito altas – actualmente, a maioria das mulheres tem poucos filhos, são gravidezes muito planeadas, com acesso a muita informação – fazendo do parto um momento muito investido e esperado», analisa a psicóloga.



A enfermeira Luísa Sotto-Mayor, que fez «milhares» de partos na Maternidade Alfredo da Costa e agora dá aulas na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, sublinha que «os partos sem nenhum aspecto negativo são muito raros». Mesmo quando tudo bate certo com o desejado, «há sempre uma ou outra coisa inesperada». Por isso, ensina aos seus alunos «a promover expectativas realistas junto dos pacientes e a oferecer os instrumentos necessários para lidar com a realidade». E isso passa, por exemplo, por «falar do tempo que pode demorar um parto» ou «dizer às grávidas que podem ter o seu bebé em qualquer hospital público e que podem solicitar junto de cada um as condições que irão encontrar no parto».
Indispensável, considera ainda a enfermeira, é dar informação correcta. «Mesmo aquela que, às vezes, os casais não querem ouvir», diz referindo-se aos planos de parto. «Uma das partes que não gostam de ouvir é que o plano de parto pode não ser respeitado. Por muitos esforços que façamos, nem sempre podemos prometer tudo o que os pais gostariam que acontecesse no nascimento do filho.»



Luísa Sotto-Mayor admite que muitos profissionais de saúde ainda sorriem quando recebem planos de parto em que as mulheres escrevem «não quero ter epidural», «não quero episiotomia» ou outra intervenção. «Ninguém sabe como o parto vai correr e, por isso, não se pode dizer “não quero”. Há casos em que a episiotomia é mesmo necessária e muitas mulheres que dizem não querer epidural acabam por pedi-la.» Assim, aconselha a enfermeira, mais vale escrever «gostaria de não ser sujeita à episiotomia», por exemplo. Isto ajuda também a não levar ideias fixas para o parto e a ter menos desilusões.



A incerteza não é razão para deixar de fazer um plano de parto. As vantagens, na opinião da doula Catarina Pardal, que acompanha grávidas antes e depois do parto, mantêm-se: «O plano de parto ajuda o casal a pensar no parto e, depois, quando o enviam para o hospital, percebem, através da resposta, que nem tudo poderá ser como desejam. Isso ajuda-os a serem realistas», defende.



Para as mulheres que querem tentar um parto hospitalar sem epidural, a doula recomenda que escrevam «peço que não me ofereçam a epidural, eu peço-a se assim o entender». É que na maior parte dos hospitais, assim que se entra no bloco de partos, a palavra mais ouvida é epidural. Com boas intenções, claro, mas, para as mulheres que querem tentar um parto natural, é uma tentação e uma desconcentração.



Durante: a atitude dos profissionais



Parto normal. O objectivo era apenas esse. Constança cresceu a saber que as mulheres da sua família tinham partos normais e, por isso, sempre achou que quando chegasse a sua vez não seria diferente. «Os pormenores não eram muito importantes, sabia que na altura certa ela nascia e pronto», conta. Mas não foi bem assim. Às 39 semanas de gravidez, «a bebé não estava a mexer bem e o médico achou melhor induzir o parto». Constança não dramatizou. Não esperava que fosse estar 12 horas «com contracções induzidas, muito dolorosas, quase sem intervalo» e «sem dilatação nenhuma». A Teresa acabou por entrar em sofrimento, obrigando a uma cesariana de emergência. «Desiludiu-me não ter sido aquele momento natural, quase primitivo e simples, que pensei que seria. Acho que, inconscientemente, tinha a sensação de que ia ser daquelas que nem dava por isso e, de repente, já estava o bebé com a cabeça de fora». Agora, arrepende-se de «não ter feito mais perguntas, de não ter procurado mais informação, para saber o que poderia acontecer e estar mais envolvida, mais consciente e preparada». Nos dias seguintes ao parto, a sensação era de «fracasso, desilusão e culpa». Com o segundo filho, Constança preparou-se e informou-se o mais que pode, novamente com o objectivo de ter um parto normal. Mas, novamente, esperava-a uma surpresa. Às 36 semanas começou a perder líquido amniótico e tudo se encaminhava para nova cesariana. Constança demorou a aceitar a ideia, mas no processo de decisão teve tempo para se preparar emocionalmente para o parto que não tinha escolhido. «Percebi que tinha de reajustar expectativas e partir para o passo seguinte». Às 38 semanas, o Afonso nasceu de cesariana electiva. «Não foi o parto que sonhei, mas foi um dia de sonho. Foi muito melhor, mais bonito e perfeito do que podia ter imaginado». Sentir que as pessoas que a acompanharam no parto se «importavam» e o facto de o ambiente emocional na sala ser de «grande expectativa e carinho» para receber os bebés, foi «uma das consolações» que teve após os dois nascimentos.



A percepção que a mulher tem do seu parto está também nas mãos dos profissionais que a acompanham. «A satisfação da mulher perante o parto pode depender do controlo que ela sente que teve. E é perfeitamente possível a mulher sentir que mantém o controlo da situação mesmo quando é feita uma episiotomia ou um fórceps. Cabe a nós, profissionais, dar-lhe informação e explicar-lhe com calma o que está a acontecer para que ela não se sinta, de alguma forma, diminuída», comenta Luísa Sotto-Mayor.



Catarina Pardal concorda: «As mulheres têm uma palavra a dizer sobre o seu corpo. Os médicos não podem dizer que é preciso fazer uma cesariana, sem explicar muito bem porquê, e depois darem um termo de responsabilidade para a mãe assinar. Ela tem de perceber o que está a assinar. O diálogo é essencial».



Por outro lado, é importante «confiar na equipa que a está a acompanhar», defende Luísa Sotto-Mayor. «Não lutar contra as equipas como se fossem inimigos, como se tivessem interesses ocultos. O verdadeiro objectivo do parto é o nascimento de um bebé saudável.» Algo que, na opinião da enfermeira, às vezes parece esquecido.



Após o parto, a atitude dos profissionais continua a ter um grande peso na ideia que cada mulher terá sobre a sua capacidade de parir. «A mulher sente que falhou se lhe for transmitida essa imagem. Muitas vezes, só precisa que lhe digam que fez tudo o que era preciso para ajudar o bebé a nascer», diz a enfermeira, rematando: «Não se pode alterar um parto, mas se tudo for bem explicado pode ser visto numa nova perspectiva».


Depois: ultrapassar a desilusão com um grito



Na sua experiência como doula, Catarina Pardal tem observado que as mulheres que vivem um parto diferente do planeado têm mais probabilidades de ter uma depressão pós-parto e, geralmente, têm também mais pressa de voltar ao trabalho. «Como que para esquecer.» No pós-parto, a insegurança vem ao de cima. «Ligam-nos mais vezes com dúvidas sobre o bebé e têm mais dificuldade em falar do parto, dizem apenas “já passou”». Pelo contrário, «quando o parto é como a mulher idealizou, a mulher fica diferente, cresce imenso como mãe e como mulher».



Catarina Pardal sabe que ultrapassar a sensação de fracasso pode ser muito complicado. Ainda mais, porque as mulheres que vivem um parto diferente do planeado «têm tendência a fecharem-se». Embora a atitude deva ser a contrária: «É muito importante falar sobre o que aconteceu. Ou escrever sobre isso, mesmo que seja só para si. É preciso deitar tudo cá para fora. Como se fosse um grito». Frequentar grupos de mães também ajuda. «Falando com outras mães percebem que não foram só elas que passaram por isso. Ao mesmo tempo, sentem-se úteis por estar a ajudar outras mulheres com a sua experiência. E isso também contribui para ultrapassar a mágoa».



Rita tem contando muito com o apoio da doula que a acompanhou e com a ajuda preciosa do Gabriel: «O meu filho tem-me demonstrado de dia para dia que a nossa vinculação é plena e tem me ensinado a reencontrar-me como mulher e como mãe». Apesar de o parto estar longe do que imaginou, Rita considera o nascimento do filho «um momento muito especial» e é esse sentimento que guarda como a «essência» de tudo o que viveu.



Para a psicóloga Mónica Fernandes, o parto não pode nem deve influenciar a forma como uma mulher se vê como mãe: «É importante a mulher contextualizar o parto como uma passagem, uma etapa do longo caminho que já está a efectuar com o seu filho, exercendo a maternidade. Não é aquele momento que a irá definir como mãe, mas sim tudo o que virá depois». Algo que Constança também já percebeu: «Sei hoje que o parto é apenas o ponto de partida para a fantástica aventura da maternidade. É o apito do árbitro. Era bom que todas começássemos com o pé direito, mas nem sempre é possível». Agora que a Teresa tem três anos e o Afonso seis meses, Constança garante que a desilusão com os partos já está resolvida: «A gratificação de ter dois filhos lindos, que se tivessem sido desenhados por mim a lápis não tinham saído mais perfeitos, não me faz lamentar nada. Porque tudo isto faz parte da nossa história, a minha e a deles».

Curar a ferida do parto que não aconteceu

Ocasionalmente, a doula Catarina Pardal organiza meditações com o objectivo de «curar a ferida» do parto que não aconteceu. «Nessas meditações vamos rever o momento do parto, fazendo uma visualização criativa do parto. O sentido é de aceitar e de agradecer, que são as chaves para poder ultrapassar a ferida», explica. Aceitar que se o parto aconteceu assim foi por alguma razão e tentar perceber o que isso pode ensinar. Agradecer o bebé saudável que nasceu. Estes encontros fazem-se com grupos restritos, no máximo cinco pessoas, para poder ser uma experiência íntima e quase privada. «Falamos muito, choramos, é muito emocional», revela a doula.
Para mais informações visite o blogue de Catarina Pardal em: http://gravidasemforma.blogspot.com



Grupos de mães

Antes, as mulheres tinham mais filhos e mais irmãos e lidavam com as questões da maternidade desde cedo. As redes de apoio entre mães criavam-se naturalmente entre família e vizinhança. Agora, muitas mulheres têm de lidar com a solidão após o nascimento de um filho. Noutros países já existem redes de mães há algum tempo. Em Portugal, surgiu recentemente a Maternar. «Uma rede de apoio comunitário sem fins lucrativos cuja missão é apoiar as mulheres e as suas famílias ao longo de todo o processo de maternidade, oferecendo suporte local e informação relevante», conforme se lê no site www.maternar.pt . A associação, fundada por sete mulheres, convida quem quiser a juntar-se à rede e organiza encontros sobre os mais variado temas, sempre ligados às questões da gravidez, parto, pós-parto e bebés.


Revista Pais&Filhos
Texto: Patrícia Lamúrias

6 comentários:

moya disse...

Parabéns Cat! e Parabéns Rita:
Sei que a partilha de há uns meses para esta entrevista não deve ser sido fácil ou feita de animo leve.
Espero que te tenha feito bem e sabe que com ela podes estar a verbalizar aquilo que muitas outras mães sentem e calam dentro de si, e assim dar-lhes força para uma mudança ou consciencialização.
Um abraço,
m.

Anónimo disse...

Parabéns Catarina, que bom ver que começam a ouvir-te. Estou mesmo feliz por teres sido tu a seleccionada para esta entrevista.
Dulce

Anónimo disse...

Voltei cá Catarina. Tu sabes que também não tive o parto que escolhi, principalmente no nascimento do Lucas, em que fui mais consciente do que queria e lutei por isso. Mas para mim o mais importante foi ter a possibilidade de escolher e chegar ao limite das minhas forças para o conseguir.
Tive-te ao meu lado e considero que tive a melhor Doula do mundo.
Não procuro porquês e não gosto muito que me digam que esta foi uma escolha minha (pela lei da atracção), porque sim, isso magoa. Eu não escolhi aquele desfecho, nunca o imaginei, pelo contrário.
Um dia ainda escrevo a minha história, nem que seja para "espantar fantasmas" e me limpar de algum sentimento negativo que ainda persista.
Bjs Dulce

Cat disse...

Querida Dulce, escrever ajuda a deitar ca para fora tudo o que te vai na alma e a sarar mais rapidamente a cicatriz.... um beijo.

Cat disse...

Os meus parabéns à Rita, ao Bruno e ao Gabriel pela coragem.... Um beijinho muito grande!

Sofia Batalha disse...

que coragem :) grandes mulheres *