Sobre o blog:

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro” Ricardo H. Jones

domingo, 9 de março de 2008

Cortar o cordão


O cordão umbilical não precisa de ser laqueado a correr no segundo a seguir ao parto. Adiar o corte por alguns minutos é um processo fisiológico e pode ter vantagens para a saúde do bebé.
A imagem está na cabeça de quase todos os casais que esperam um filho: o bebé nasce e, imediatamente, corta-se o cordão umbilical. Como que numa pressa de o tirar da vida uterina e apresentá-lo ao mundo, limpo e independente. Vanda Pereira tinha uma ideia diferente, depois de ler sobre o assunto e de se aconselhar com uma parteira, decidiu que no nascimento do seu filho deveria haver, sobretudo, calma. Passou toda a fase da dilatação em casa, acompanhada por duas parteiras e uma doula, e só quando estava com oito dedos de dilatação optou por ir para o hospital. Quando chegou ao Garcia de Orta a dilatação já tinha aumentado para 10 dedos e o João Mateus nasceu cerca de uma hora depois. Não antes sem Vanda pedir à enfermeira que estava a assistir para deixar o cordão umbilical pulsar até ao fim. Apesar de o procedimento não ser habitual naquele hospital, o seu desejo foi respeitado. «A enfermeira disse que não havia problema e esperou. Demorou perto de cinco minutos», lembra Vanda. Evitar uma separação muito brusca entre o recém-nascido e a sua «casa de nove meses» foi o motivo principal desta sua decisão: «Acho que é melhor para o bebé em termos emocionais. Parece-me uma coisa do senso comum», explica. A Organização Mundial de Saúde (OMS) há muito que abandonou a recomendação de cortar o cordão umbilical imediatamente a seguir ao nascimento. «O laqueamento tardio do cordão umbilical é a forma fisiológica de tratar o cordão. O laqueamento precoce é uma intervenção que precisa de justificação. A "transfusão" de sangue da placenta para o bebé, se o cordão for cortado mais tarde, é fisiológica e é improvável que tenha algum efeito adverso, pelo menos nos casos normais», pode ler-se no documento «Assistência no parto normal: um guia prático» (Care in normal birth: a practical guide), de 1996. Segundo o mesmo documento, adiar o corte do cordão traz benefícios para a saúde do bebé, tais como o aumento do volume de sangue rico em oxigénio que passa da mãe para o bebé, através da placenta, e o aumento das reservas de ferro, o que diminui o risco de anemia na infância. Para isso, basta que, depois do nascimento, o bebé seja colocado ao nível da pélvis da mãe, ou abaixo, durante três minutos antes de o cordão ser cortado. Não é tempo suficiente para o cordão acabar de pulsar, mas, ainda segundo a OMS, o processo pode demorar mais tempo sem qualquer prejuízo para a mãe ou para o bebé. Um estudo publicado na conceituada revista British Medical Journal, em Agosto de 2007, apontou no mesmo sentido. O autor da investigação, Andrew Weeks, confirmou os benefícios descritos pela OMS e concluiu: «Considerando que o corte precoce do cordão umbilical não beneficia a mãe ou o bebé e pode até ser prejudicial», os profissionais devem considerar «introduzir o corte tardio do cordão umbilical nas rotinas do parto». No entanto, na maior parte das maternidades europeias, as portuguesas incluídas, o cordão umbilical é cortado imediatamente a seguir ao nascimento. A excepção vai para alguns países nórdicos, como por exemplo a Dinamarca, onde se estima que o corte tardio do cordão umbilical seja praticado em 93 por cento dos hospitais.
Discussão em aberto «Não existe consenso a nível europeu sobre quando se deve laquear e seccionar o cordão umbilical», explica Diogo Ayres de Campos, director da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de S. João (HSJ), no Porto. Apesar de admitir que retardar o corte do cordão umbilical possa ser «uma medida mais fisiológica», o médico desvaloriza os benefícios sugeridos: «A única vantagem documentada é o aumento dos níveis circulantes de ferro do recém-nascido. Esta vantagem não tem grande tradução na saúde global do bebé, desaparecendo rapidamente após algumas semanas de vida». Assim, no HSJ «laqueia-se precocemente o cordão em todos os casos, excepto nas situações em que os pais pedem para deixar acabar de pulsar». Uma situação que aconteceu apenas três vezes durante o ano de 2007.As vantagens da laqueação precoce «residem na possibilidade de retirar sangue para avaliação da oxigenação fetal, extraindo-se daí conclusões sobre a monitorização fetal que ocorreu durante o parto». Devido aos elevados custos deste procedimento, apenas alguns hospitais europeus universitários efectuam esta avaliação. Não é o caso de Portugal, onde só se efectua esta análise em casos específicos. Na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, não existe um protocolo sobre quando cortar o cordão umbilical. Clara Soares, coordenadora da Urgência, explica que o habitual é «esperar uns segundos», embora «não até deixar de pulsar, porque nunca foi provado cientificamente que esta atitude fosse benéfica para a saúde do recém-nascido». Entre perguntar ao pai do bebé se quer cortar e ensinar-lhe o procedimento, explica a médica, acabam por passar, pelo menos, 30 segundos. Mas não está estipulado quanto tempo depois do nascimento se deve cortar o cordão. Até agora, para que um bebé receba todo o sangue do cordão umbilical é preciso que os pais solicitem o procedimento ao profissional que acompanha o parto, o que acontece «muito raramente». De futuro, Clara Soares não afasta a possibilidade de alargar esta prática a todos os partos normais. «É uma conduta sobre a qual ainda não nos debruçámos. Mas estamos abertos a mudanças, desde que existam provas científicas», refere, lembrando as alterações que foram recentemente introduzidas naquela maternidade na tentativa de oferecer às mulheres um parto humanizado, como a ingestão de líquidos durante o trabalho de parto, a permissão para escolher a posição de parto ou o contacto pele com pele entre mãe e bebé logo após o nascimento.
Porquê a pressa? A «urgência» em cortar o cordão umbilical surge do mesmo modo que outras práticas interventivas, como a episiotomia ou a administração de ocitocina artificial, que transformaram o parto numa sequência de rituais médicos. Porém, antes pensava-se que o aumento do volume do sangue transferido entre mãe e filho poderia estar relacionado com um maior risco de hemorragias pós-parto e de retenção da placenta para a mãe, e de excesso de bilirrubina no organismo do bebé, cuja acumulação pode causar icterícia. Segundo a OMS, não existem evidências que comprovem nenhuma destas situações. Teresa Tomé, neonatologista na Maternidade Alfredo da Costa, lembra ainda que outro dos critérios para cortar o cordão logo após o nascimento está relacionado com a incompatibilidade RH (mãe com sangue RH negativo e filho com sangue RH positivo, ou vice-versa). Um problema muito importante no passado, que, hoje em dia, pode ser tratado previamente, exigindo, no entanto, alguns cuidados no parto. Para a OMS, os casos de incompatibilidade RH e de bebés prematuros são os únicos em que «o laqueamento tardio pode causar complicações». No entanto, uma revisão de sete estudos publicada na base de dados Cochrane, em 2004, concluiu que, mesmo nos partos pré-termo, esperar 30 a 120 segundos antes do cortar o cordão umbilical pode «estar associado a uma menor necessidade de transfusão e a menos hemorragia intraventricular». Teresa Tomé reconhece que «no recém-nascido prematuro, a laqueação após 30 segundos evidencia diminuição de necessidade de transfusão». Ainda assim, o assunto não reúne consenso. «O timing ideal para a laqueação do cordão umbilical é um ponto actual de discussão e enquadra-se numa modificação de conduta na sala de partos, tal como o contacto pele com pele ou ressuscitação com ar ambiente», resume a neonatologista.
retirado da revista Pais&Filhos

3 comentários:

moya disse...

Olá!
Post muito interessante! Só é pena que não tenham abordado a questão da possibilidade de recolha de células estaminais... De todos os sites das empresas que prestam esse serviço em Pt, só vi indícios em uma (!) que não remetia para o laqueamento imediato do cordão no seu procedimento, supostamente porque senão não se consegue recolher as ditas células... Era engraçado ver como se dividem as opiniões dos profissionais sobre este assunto... Encontrei um site de parteiras inglesas que diz que é possível recolher o sangue do cordão para recolha de células estaminais após a laqueação tardia ou até depois do nascimento da placenta! é pena que as empresas que prestam esse serviço não estejam informadas / não informem melhor os futuros clientes sobre este assunto.

Cat disse...

Olá Moya, a informação que eu tenho é que não se consegue recolher as células estaminais se se esperar para cortar o cordão, desconhecia essa informação que me esta a dar, mas vou-me informar melhor...
Obrigado e brevemente dou noticias
Já agora pode dizer qual é esse site de parteiras inglesas?

moya disse...

Olá Cat!
Vou escrever-lhe um email com essa informação,ok?
beijinhos
moya